Desde o dia 14, moradores da favela sabiam que teriam de sair da área e, hoje, decisão judicial foi cumprida

Depois do anúncio, reintegração chega e derruba barracos no Jd. Noroeste

“Tia, tô com medo”. Assustado, Guilherme, 9 anos, observava atento a patrola que havia acabado de destruir os últimos barracos na Casa do Rei Davi, favela formada desde 2019 em área privada no Jardim Noroeste. Desde o dia 14 as famílias aguardavam apreensivas a execução da retomada da área, o que aconteceu hoje, logo nas primeiras horas da manhã

A decisão favorável para reintegração de posse estava pendente de cumprimento desde dezembro de 2019. No dia 14, segundo relatos já feitos ao Campo Grande News, oficial de Justiça foi até a área e avisou que todos deveriam sair e que poderia seria necessário uso de força policial para retirada. E, hoje, o anúncio tornou-se realidade. Cerca de 20 policiais do Batalhão de Choque acompanharam a patrola usada para derrubar os barracos, localizados próximos da Penitenciária de Segurança Máxima. Por conta do aviso de domingo, a maioria optou em sair da área e apenas 4 barracos ainda estavam sendo habitados.

Em um deles, morava a dona de casa Raissa da Silva Barros, 22 anos. Disse que os militares chegaram por volta das 5h e disseram que eles teriam uma hora para retirada dos pertences. Ela mora há 1 ano e 6 meses na favela, com o marido, o filho de 5 anos e, agora, a recém nascida de pouco mais de 20 dias. “Destruíram o que era nosso, mal deixaram tirar nossas telhas de casa, nós não temos para onde ir, eu estou na rua com duas crianças”. O marido vive de bicos e eles tiveram o pedido de auxílio emergencial negado.

Quem também conseguiu tirar o que pode foi a dona de casa Elisane Francisco Marques, 44 anos, que estava na favela há 8 meses. O barraco de madeira e lona de apenas uma peça e um banheiro era dividido com o marido, a filha e um idoso, sem parentesco, que ela cuida. Conseguiu salvar roupas e alguns móveis. “Situação é muito triste, não temos dinheiro para construir outra casa”. Provisoriamente, já tem outro endereço, também lote invadido. “Meu desejo era ter ajuda para construir em outro lugar”.

Na hora da destruição dos barracos, havia muitas mulheres e crianças na área. Na confusão, dois filhotes de cachorros morreram atropelados, um, por caminhão de mudança e outro provavelmente na hora que a patrola derrubou as estruturas, sendo encontrado sob os pedaços de madeira.

Esse foi o cenário que assustou Guilherme. O menino, deficiente físico, mora com o irmão de 17 anos na casa de Pamela Cristina da Silva Barros, 20 anos, a dona de casa que os abrigou depois que foram abandonados pela mãe e da morte do pai deles, vítima de câncer. A família, que ainda tem o marido de Pamela, morava no barraco de lona dividido em quarto, banheiro, cozinha e sala em anexo. “Me sinto revoltada, tiraram tudo que eu tinha, aqui não tem bandido”, disse Pamela. Com a renda restrita aos bicos feitos pelo marido, ela pediu ajuda a quem quisesse doar roupas para as crianças e ainda tentava encontrar alternativa para eles.

A índia terena Márcia de Arruda, 32 anos, também não tinha idéia de onde ir. Estava na favela Casa do Rei Davi há 1 ano e 3 meses, desde que deixou a Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, com os 5 filhos. Vende milho em Campo Grande e recebe R$ 180 do Bolsa Família, renda que sustenta a família que vai crescer com a chegada do neto:a nora está grávida de 6 meses. Chorando, olhava para os pertences que conseguiu salvar.

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